Ana Leal
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Chamavam-lhe o Velho das Coisas. Vivia numa casa térrea perto do mar, numa cidade da Costa de Prata onde o vento colava sal às janelas. Todas as manhãs descia a rua devagar, com um saco de pano cru ao ombro. Entretinha-se a recolher o que o mundo deixava cair: botões soltos, fitas desbotadas, tampas de
O colecionador de nadas Read More »
Diziam que Elias tinha enlouquecido. Que passava os dias a conversar com coisas mortas – uma chávena sem asa, uma pena sem tinta, um relógio parado nas quinze horas e trinta e quatro minutos, um porta-moedas sem fecho, um botão perdido e tantos outros. No quintal da sua casa, entre ervas e silêncios, não havia
O Mundo Útil O relógio não marcava horas, contabilizava desempenho. As fachadas dos edifícios respiravam luz e dados, pulsando como corações artificiais: “O tempo que não rende, morre.” A cidade era um organismo de vidro e aço, onde o ar cheirava a ozono e metal limpo e o silêncio soava como uma linha de produção.
Conheci muita gente estranha nos meus sessenta anos de vida, mas nenhuma tão particular como Manuel Guilherme Lopes da Costa. Ainda hoje me pergunto quem seria eu se não o tivesse conhecido. Olho em redor na minha casa. O cinzeiro redondo de vidros coloridos não seria um cinzeiro. Decerto já não teria um relógio cuco
Um Dia Fui Um Guarda-chuva Read More »
Sílvia sempre fora considerada estranha. Gostava de permanecer quieta. Às vezes sentada, outras vezes deitada, ou simplesmente encostada a um tronco, a observar tudo à sua volta, sem fazer mais nada. Pelo menos, era o que diziam. Alguns falavam em meditação, mas ela nada percebia disso. O que realmente apreciava era ver as cores, sentir
Vagueava pelas ruas da aldeia, sem eira nem beira. Uma fatia de centeio aqui, um arroz de feijão ali; assim o Amândio passava os dias e as noites. Como as irmãs. Filhos de pais emigrantes na América, ficaram pela aldeia aos cuidados da avó Aida, viúva, já com anos de labor nos campos de outrem.
Está um pássaro no beiral da janela. Vejo da porta que dá para o interior do balcão deste bar noturno. Daqui, parece enorme. Negro, certamente, de bico pontiagudo. Deslumbra o cais e parte do rio Tejo, que aparece entre prédios. Não sente vertigens pela altitude em que nos encontramos, sexto andar para as traseiras. Pego
No Beiral do Inútil Read More »
Na esquina mais esquecida de uma cidade desmemoriada, entre uma farmácia com a porta identificada com o letreiro “Fecho por tempo Indeterminado” e um beco perfumado de um tempo pretérito, existia uma loja sem vitrine e sem placa. Só quem precisava muito dela a conseguia encontrar. E, mesmo assim, quase sempre sem dar conta disso.
O Armazém de coisas nenhumas Read More »