Vera Nobre
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No átrio, abro a porta da sala e o som bate-me de frente. Fico hipnotizada pelos feixes de luz verde que sobem do palco. Movem-se da direita para a esquerda, hipnóticas. Uma luz avermelhada incide na plateia. Parecem ondas, conforme se movimentam ao som da música e ao ritmo do “mosh”. O resto da sala
Mateus matou o grilo no dia do seu trigésimo aniversário. Não era um grilo, na verdade, era um gafanhoto, mas era um chato do caralho. Esse tipo de linguagem é impróprio e desnecessário seria o que o grilo diria, se ainda tivesse a cabeça ligada ao corpo. Enquanto era criança, Mateus suportara-o. Poderia dizer, até,
Conseguia imaginar o som dos ramos das árvores a sacudirem-se como chicotes. As pessoas caminhavam curvadas, com a cabeça inclinada para a frente, os braços cruzados contra o peito, escondidas por casacos, golas altas, cachecóis e capuzes. Encostada ao parapeito, do lado de dentro da janela, também eu de braços cruzados, via-me obrigada a libertar
Manhã desperta O som da campainha arrastou-o para a minúscula realidade do quarto. Os olhos, estremunhados pela vigília, fixaram o teto como se esperassem licença para regressar ao dormente aconchego. Três toques insistentes estilhaçaram-lhe a vontade. De ceroulas e camisola de lã, dirigiu-se à entrada. Do binóculo descortinou apenas um emaranhado de caracóis negros que
Ser ou fingir? Eis o senão Read More »
Na praceta, todos riam, numa espécie de musical para pequenos alegres e entusiastas. Em corridas, perseguiam a amizade de cada um. Verão quente aquele, que colava os cabelos às testas, gotas de suor a escorrer até ao queixo, mãos e unhas pretas da calçada, joelhos esfarelados pela mesma. Perdidos na inocência, o caminho era fácil,
Se a tua respiração fosse uma música Read More »
Tudo é movimento. A natureza, a terra e nós. Cruzamo-nos com outras pessoas, vidas alegres, ou tristes, angustiadas, doentes, mas marcadas pela interrogação. Um rosto não mostra tudo. O sol entra pelos vidros das janelas, a luz da vida em contraste com o frio de um sepulcro que sente no peito. Na mão, ainda
Cuidado para não cair na armadilha Read More »
— É a nossa mala de cartão? — perguntou a mulher, ao ver os escassos pertences de ambas serem metidos à pressa lá para dentro. Cilinha olhou, enternecida, para aquela mãe que sempre tratara como sua filha. Aos seis anos, tinham-na arrancado ao lar, aos tios e à pequena vila por onde corria, sem horas,
As coisas hão de melhorar Read More »
Outras vezes oiço passar o vento, E acho que só para ouvir passar o vento Vale a pena ter nascido Alberto Caeiro De instinto primário, o ato de ouvir eleva-se à mais refinada aferição da realidade. Na barriga, o melhor é escutar as batidas do coração da mãe e se embalar no mantra ancestral. Como
Escutar e discernir Read More »