Revistas

O espelho

Pumba, catrapumba! Maria atirou a escova do cabelo para o chão. Deitou as mãos à cabeça e despenteou-se. — Nunca vou ser uma bailarina de verdade! — disse,  olhando-se ao espelho que tinha no canto do quarto, de braços cruzados, língua de fora e franzido a testa. — Vem cá! Vou mostrar-te o que não […]

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Palavras ensaiadas

«[…] e sem um forte afeto e humanidade no coração, […] a felicidade jamais pode ser alcançada.» Charles Dickens Faltam vinte euros. Ricardo pousou o rosto infantil entre as mãos. Nem o dinheiro espalhado na colcha de dragões, nem a pequena vaca de porcelana esventrada, o motivavam. Sentou-se no chão, joelhos dobrados, imaginando que obrigava

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O Muro

O muro era tão alto que nem se vislumbrava o topo. E tão liso que era impossível trepá-lo. Tampouco se sabia de que material fora feito, nem como fora construído. Parecia sempre ali ter estado e, de facto, assim era. Jamais constara nos livros de história, nem fora sujeito nas estórias de alguém. Também se

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Interlúdio

Arregalei os olhos no escuro, em vão. Teria sido o ressalto de uma queda? O sonho de um sismo, talvez. Os cabelos a cobrir-me a cara, os lençóis enrolados nas pernas e as mãos perdidas, às cegas, na procura de pontos de referência. Finalmente, encontrei a cabeceira da cama. Com estranheza, dei pela ausência da

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Desligação

…e nada mais há a dizer, agora que resta apenas a memória de todas as palavras ditas e se esvazia a vontade de construir novos sentidos, não há motivo algum para falar por falar. Repara que nada de novo surgirá. Recuso continuar a sentir-me vigiado, como cada vez que ouço “onde estás?”; não posso continuar

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Colecionadora

Disseram-me:          — Vais trabalhar para o café. Vais ver: é trabalho honesto e dinheiro certinho.          Aceitei. Tinha de pagar o quarto nas águas-furtadas, sem elevador, da Rua dos Correeiros, onde o que me restava dos pertences ainda se empilhava devido à falta de mobília. O dinheiro até podia ser certinho, mas a quantidade era parca.

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